Os dias passavam e a situação piorava a cada dia. As bombas haviam acabado com a cidade. As praças, as escolas, as casas que traziam tantas recordações estavam demolidas.
Nos olhos das crianças liam-se desespero e tristeza, era mais um dia de dor.
As famílias de longas gerações que haviam se mantido até ali intactas eram interrompidas pelos barulhos estrondos das bombas e pelas marcas de sofrimentos que nunca seriam removidas.
Entre lágrimas e angústias de verem vários rostos com marcas de uma violência brutal que envolviam culpados e inocentes, haviam vários soldados que lutavam para ajudá-los, dia a dia, correndo risco de vida e sofrendo por não poder fazer nada para salvá-los.
Dentre muitos soldados havia um ali que havia me chamado à atenção, chamava Chales.
Algumas pessoas ali diziam que ele era antipático e até grosso com as pessoas, mas eu não conseguia concordar com essas afirmações. Ele tratava tão bem as crianças, perguntava se elas estavam bem, dava um abraço paterno e sempre enxugava as lágrimas que rolavam a cada abraço.
Eu sempre o observava. Ficava ali com os meus colegas. Era tímido, não me aproximava.
Certo dia, após uma longa batalha de dois dias tentando salvar crianças dos estrondos de uma escola, com os sentimentos à flor da pele, eu vi Chales retirando uma criança com vida. Meus olhos rapidamente foram invadidos por lágrimas que rolavam a minha face e dos companheiros.
Chales com a criança no colo, perguntava se ela estava bem, passava a mão na sua cabeça tirando o pó e a abraçava firmemente. As lágrimas de Chales faziam trilhos limpando a poeira nas costas da criança. Ela soluçava. Todos aplaudiam à Chales como se ele fosse um herói.
Os pais da criança a reconheceram imediatamente, Chales passou a criança para os pais e saiu.
Os companheiros davam parabéns a ele pela coragem e pela competência.
Faziam-se exatos três meses que nós estávamos ali, sem notícias da família e um acontecimento assim mexia com todos. Eu não tinha filhos, não tinha família, eles haviam sido levados por uma guerra e desde esse dia eu tinha prometido tentar, pelo menos, proteger ou até se por uma dádiva salvar uma vida.
Chales saiu em meio à multidão, eu fui atrás dele. Ele andava rapidamente, eu seguia-o em meio à multidão. Queria dar um gesto de amizade ou algo do tipo, parabenízá-lo pela braveza.
Em questão de segundos, ele havia sumido diante a multidão, uma multidão que chorava e aplaudia aquele homem.
Procurei por todos os lados, não havia nenhum sinal de Chales. Resolvi voltar ao acampamento, beber algo
e voltar a batalha.
Logo avistei em frente a mim alguém sentado, lendo um papel, era Chales. Apoiado na bagagem ao sol quente, eu pronunciei seu nome, ele rapidamente levou a mão no seu rosto, dava para ver claramente, secando as lágrimas. Levantou-se dobrando o papel que estava em suas mãos.
- Precisam de mim? Já estou indo. Só sentei para descansar um pouco. - Ele disse rapidamente.
- Não, calma. Só queria parabenizá-lo. Foi um grande ato de coragem! - Eu disse me aproximando e abraçando-o.
Chales chorava visivelmente.
- Calma! Não chore!
- Não é isso, rapaz. - Ele dizia enxugando as lagrimas.
- Faz exatos três meses que eu não sei nenhuma notícia de minha filha. Ela perdeu a mãe logo cedo, ficou com a avó. No dia em que eu fiz as malas, ela sorria para mim e dizia que era para mim salvar muitas crianças. Seu sorriso era de afeto. Falava que eu era um herói, porque eu tinha entrado na casa em a mãe dela estava e tirado ela dos estrondos com vida. Deu-me este papel, com este desenho. - Chales chorava, eu apenas observava-o. - Estava aprendendo a escrever e escreveu isso para mim.
Chales esticou as mãos no me entregando o papel. Nele havia um desenho, o desenho era um homem, visivelmente era Chales, com algo no colo, parecia um bebe ou algo embrulhado e tinha uma mulher com asas. Embaixo tinha uma escrita, parecia letra de criança que ainda aprendia a escrever, mas dava para ver nitidamente escrito "Papai, mamãe se foi com um anjo. Você é o meu herói, salva crianças, mas se não conseguir você sempre será meu herói. Mamãe cuidará delas, ela é um anjo. Eu amo você".
Eu não conseguia disfarçar, chorava junto com Chales. Eu me aproximei dele e dei um abraço afetuoso, dizendo:
- Ela deve estar orgulhosa de você! Herói!
Deste dia em diante, eu passei a olhar as pessoas de uma forma diferente, tentava enxergar além do que os olhos podem ver as crianças principalmente, via nos olhos delas dor e perda e sempre as abraçava, fazendo mesmo sem elas saberem, meus filhos. Filhos da vida. Mas meus filhos.
STOP AND STARE